Terra em Transe (1967)

Drama | 111 min

Sinopse

A intriga de Terra em Transe se desenrola num país imaginário, Eldorado. Felipe Vieira, governador da província de Alecrim, decide não resistir ao golpe de estado, liderado pelo político de direita, Porfirio Diaz. Depois de uma acirrada discussão com Vieira, o protagonista-narrador, Paulo Martins, acompanhado por Sara, secretária de Vieira, foge do palácio do governador e é ferido mortalmente pela polícia. Enquanto vai perdendo a vida, lembra-se dos acontecimentos que culminaram com esta derrota pessoal e política. Quatro anos antes, ele tinha sido o poeta e protegido de Diaz, até o momento que o abandona a fim de se dedicar a uma poesia mais política. Ele vai a Alecrim para colaborar com a militante Sara na campanha eleitoral de Vieira, um político populista. Ganham as eleições, mas o governador eleito, devido às suas ligações com os latifundiários, quebra suas promessas eleitorais e solta os policiais contra os camponeses. Desiludido, Paulo se lança numa vida de orgias e de náusea existencial.
Mais tarde, quando Sara lhe pede para fazer um programa de TV a fim de destruir Diaz, agora aliado da Explint (leia-se imperialismo) Paulo, em nome do seu amor por Sara, aceita a proposta e faz um filme, “Biografia de Um Aventureiro”, contando as sucessivas traições políticas de Diaz. Denunciado como traidor por Diaz, Paulo se liga à eufórica campanha presidencial de Vieira. Numa atmosfera de festa popular perturbada somente por atos ocasionais de repressão violenta, o povo contribui para o crescente entusiasmo da campanha populista de Vieira. A direita, temendo uma derrota eleitoral, começa a preparar um golpe. Voltando ao ponto inicial do filme, vemos Paulo oferecer um revólver a Vieira, que o recusa. Numa montagem paralela assistimos os momentos finais da morte de Paulo se alternar à coroação de Diaz e o plano mostra Paulo com um fuzil erguido.
Organizada em torno das memórias de Paulo enquanto ele morre, a narrativa de Terra em Transe consiste em um relato lúcido de uma vida dominada por ilusões políticas conformando-se com o que tem sido chamado de “fórmula quixotesca de desencantamento sistemático”. Como para fazer ressaltar esta estrutura de encantamento-desencantamento, Paulo fala tanto no prólogo como no epílogo sobre a perda de sua fé, revelada como ingênua e impotente. Paulo devota a sua fé, primeiro a Porfirio Diaz, o “Deus” de sua juventude e em seguida ao seu “líder”, o demagogo Vieira. A palavra “líder”, na verdade, reverbera ironicamente o filme inteiro, culminando no grito de Paulo quando Vieira não resiste ao golpe: “Está vendo Sara, quem era o nosso líder? O nosso grande líder?” A contribuição particular de Glauber Rocha consiste na dimensão política que dá à fórmula cervântica. Paulo se desilude com todos os líderes políticos burgueses, sejam eles reacionários como Diaz ou liberais como Vieira. Essa desilusão é compartilhada por pessoas como o jornalista Álvaro e por militantes como Alto e Sara. Paulo divide este desencanto com o povo que “não pode acreditar em nenhum partido”.
O filme como um todo elabora o que pode ser chamado o tema da “diferença aparente”. Vieira e Diaz parecem ocupar lugares opostos no espectro político mas a montagem paralela de suas campanhas eleitorais, embora fazendo num nível superficial um contraste entre os dois políticos, funciona num nível mais profundo como uma irônica “mise-en-equivalence”. O magnata da imprensa, o nacionalista Fuentes, pensa que a sua posição difere da de Diaz; mas forças históricas mais fortes do que ambos tornam suas posições convergentes. Paulo pensa que não é um opressor mas ocasionalmente age como polícia de Vieira. Sara e os militantes parecem ser mais de esquerda, mas suas ações servem somente para reforçar Vieira e em última instância Diaz. Todos eles, com exceção de Diaz, alimentam a ilusão de sua própria pureza.

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